Na terra dos manacás de Tarsila

Fotos: Ana Cláudia de Siqueira

Vara do Trabalho de Capivari e seus servidores: foi a primeira Vara a ser inaugurada sob jurisdição do TRT-15

Por Ana Claudia de Siqueira

O Grupo Móvel da Presidência de Atenção as Unidades de 1ª Instância (GMP) visitou, no último dia 22 de março, os servidores e magistrados da Vara do Trabalho de Capivari, a primeira a ser inaugurada sob jurisdição do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região. O fato histórico é datado de 20 de fevereiro de 1987, pouco mais de dois meses depois da instalação da sede do Regional, em Campinas.

Com jurisdição sob os municípios de Capivari, Elias Fausto, Monte Mor, Rafard, Rio das Pedras e Mombuca, que somam uma população de 154.679 habitantes, a VT está instalada há cerca de dois anos e meio em um prédio de 990 metros quadrados, localizado n Rua General Osório, 1.174, sendo 75% maior do que a primeira sede. A VT é uma das 15 unidades judiciárias da 15ª com o Processo Judicial Eletrônico (PJe-JT) em funcionamento desde o ano passado.

Durante a reunião do GMP, os servidores puderam expor suas demandas e participar de uma dinâmica sobre estresse e qualidade de vida, promovida pela psicóloga da equipe, Juliana Barros de Oliveira. Paralelamente, a assistente social Maria Ângela Caparroz Cordeiro entrevistou jurisdicionados e advogados para colher informações sobre suas experiências com a Justiça do Trabalho.

Capivari, a terra dos manacás que ora serviram de fonte de inspiração para Tarsila do Amaral, sendo muitas vezes retratados em suas obras, também exerce fascínio sob os servidores da VT. É o caso de Linéia Quibao Bisin e de Sérgio Forti Battagin, que desde que ingressaram na Justiça do Trabalho, em 1998 e 1999 respectivamente, buscaram remoção para unidade. "Estou em casa", festeja Battagin, que atuava no Fórum Trabalhista de Americana e conseguiu transferência em 2012.

Linéia e Sérgio: satisfação em trabalhar na VT de Capivari

Linéia, assim como a irmã Lucimara Quibao Daroz, que é assistente do diretor da VT, lembra com carinho das brincadeiras de infância vivenciadas no quintal do vizinho, a antiga fazenda São Bernardo, hoje pertencente ao município de Rafard. Ali viveu, a partir de 1889, a menina Tarsila do Amaral que se transformou na maior pintora brasileira e ícone da famosa semana de Arte Moderna de 1922, grande marco da história cultural do país.

Os servidores referem-se com orgulho à capivariana ilustre e citam outros artistas nascidos no município. "Capivari também é terra de poetas", lembra Lucimara, complementada posteriormente por Sérgio Battagin, que cita Rodrigues de Abreu, contemporâneo de Tarsila e autor de obras como "Noturnos" (1919) e "Casa Destelhada" (1927). Uma herma do poeta, inaugurada no centro de Capivari em 1930, na praça Cesário Motta, é assinada por Tarsila, o que demonstra também seu talento para escultura. O poeta e ensaísta Amadeu Amaral, também capivariano, foi membro da Academia Brasileira de Letras em vaga deixada por Olavo Bilac, em 1919.

Herma de Rodrigues de Abreu, produzida em bronze por Tarsila do Amaral, é atração da praça Cesário Motta

Irmãs pintoras

Compartilhar do mesmo cenário que inspirou as primeiras pinturas de Tarsila certamente serviu de motivação para as irmãs Lucimara e Linéia se dedicarem ao estudo das artes e dos trabalhos manuais. Lucimara, que sempre gostou de desenhar desde os sete anos, fez uso desse talento com seus alunos quando foi educadora na rede pública de ensino, antes de ingressar na Vara do Trabalho de Capivari, em 1996. A atuação no Poder Judiciário levou-a a cursar Direito na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Linéia fez Engenharia Civil e foi bancária. Ambas herdaram da avó e da mãe o interesse pelos trabalhos artísticos manuais. Em vez de telas, optaram por tecidos, com técnica aprimorada em cursos ministrados pelo artesão Luís Moreira.

Trabalho em família e ação solidária

Paulo Henrique e Rosine

Além das Quibao, a VT de Capivari conta ainda com membros da família Fincato de Oliveira. Paulo Henrique, que é executante, atua no atendimento ao balcão e teve sua irmã mais velha Ronise como grande incentivadora para o estudo, visando o concurso público municipal. Ronise é concursada do TRT-15 e trabalha como secretária de audiência. "Ela puxava minha orelha quando não estudava e funcionou porque passei em primeiro lugar", recorda Paulo, que concilia o trabalho na VT com uma ação solidária. Semanalmente ele vai até o Lar dos Velhinhos São Vicente de Paulo, em Capivari, para levar uma "palavra amiga" aos idosos e acompanhá-los em atividades de lazer. "É muito gratificante", diz Paulo.

 

Rio das Capivaras

A origem do nome Capivari vem do tupi, que significa rio das capivaras. Foi ali nas margens que surgiu o pequeno povoado, rota das minas de ouro. Há registros de que em 1820 foi rezada uma primeira missa, numa capelinha em louvor a São João Batista. Em 1826, o então imperador D. Pedro I elevou a povoação à categoria de freguesia. Seis anos depois tornou-se Vila de São João Batista do Capivari de Baixo, para distinguir-se do vilarejo de Capivari de Cima (atual Monte Mor). Nesta época teve início o desenvolvimento econômico, com a produção de açúcar, algodão e posteriormente o café. O município, que teve seu nome simplificado em 1905, funcionava como sede dos distritos que hoje compõem a jurisdição da Vara do Trabalho de Capivari. (Com informações da Prefeitura Municipal de Capivari: www.capivari.sp.gov.br; IBGE Cidades e o livro Tarsila Eterna, de Jehoval Junior).